domingo, 26 de dezembro de 2010

Natal

Em casa não comemoramos mais o Natal. Talvez porque só sejamos quatro e o resto da família mora longe, ou talvez porque a época de nossos natais já passou... Não sei.

A verdade é que sinto falta. Sinto falta dos natais na casa de minha avó, tudo tão dourado e vermelho, a família toda reunida, trocando presentes, rodinhas de conversa, ceia... Eram dias mágicos aqueles, simplesmente mágicos. Talvez esses meus olhos de menina sejam fruto de minha avó, que sempre tornava os momentos assim.

Ela se foi, mas meus olhos eu não perco, esse meu jeito de olhar o mundo, esse meu outro eu que me conforta e me dá apoio. E é com eles que eu vejo o Natal, pois para mim ainda é um dia de abraçar e presentear, de estar junto. Só com isso o momento já se torna especial, mesmo que a ceia seja um churrasco e enquanto eu tomo champanhe meus pais só tomem cerveja.

E a aqueles momentos mágicos tenho mais amor do que dor de saudade e por isso me delicio sempre ao lembrar, como se hoje eu estivesse lá...

Então, que todo o mundo tenha um ótimo Natal, mesmo já sendo dia 26 porque para mim o Natal só acaba quando começa o Ano Novo. :)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Vida

As mãos que tecem, cansadas, o fio insistente da vida, calejadas de mágoas e dotadas de habilidades, ao pararem de tecer aquele agasalho carnal imbecil, tão imbecil que se cobre às vezes de luxo, outrora de amor, outrora de ódio, vão repousar em outras mãos quentes e tênues, ou vão suplicar na lareira ardente das dores e dos seus pecados? Lamentar não é bom, mas nos faz lembrar da importância das coisas.

E que graça teria a vida sem a beleza que vimos nos olhos dos outros? Por mais simples que sejam as coisas, por mais puras, seus significados ardem na pele e nos contam segredos ao pé do ouvido. O significado está muito além da simples e banal base, daquilo que vemos. Pelo que vi na vida, eu diria que o significado brota dos sentimentos. E de onde brotam os sentimentos? Da confiança? Mas confiança também é um sentimento. Das ações? Talvez. Alguns sentimentos brotam na hora, outros demoram a dar sinal de vida, demoram a serem notados. Sentimentos teimam em aparecer também ao se conhecer melhor alguém, seja uma simples sensação de desapontamento, ou uma fervorosa e abrangente surpresa.

Há muito o que se ler nas pessoas de idade, nos olhos cansados mas sadios, na pele frágil e macia, e a sua satisfação com o mundo, o modo com que falam de tudo que viveram, é tudo tão flutuante e intocável. Nos jovens, digamos assim, adultos, vemos a fibra de lutar pelas coisas, a teimosia de se acharem sábios demais e auto-suficientes, a vontade de ter os seus e cuidar dos seus, seja dos filhos, móveis, trabalhos, é uma fase totalmente possessiva. Já nas crianças vemos o ardor da inocência nos olhinhos brilhantes assim como sentimos sua energia piscando nos dedinhos, nos risinhos e nas brincadeiras infantis. A pureza deles os faz os mais sábios quando se trata de acreditar, eles acreditam nas coisas e a força dessa crença os impulsiona a serem alegres.

Mas alegria não é tudo. Seria bom ser feliz e só por descobrir a verdade, se tornar triste? Ou se achar imbatível? Não. Sinceramente não. Que importância tem a felicidade? Que importância tem sentir? E por quê tem de ser importante? E do que importa querer a verdade? Ela pode ser tão banal que está nos nossos olhos e não a enxergamos. E por quê ela não poderia ser banal?

Isso faz parte do homem, questionar, esperar mais das coisas do que se deve. Não que sejam coisas ruins, claro que não. A verdade das coisas pode ser banal ou mística, angelical. Não importa, isso não vai mudar o que esperamos dela. Sempre esperamos mais dela, por isso ela nunca pode ser alcançada.

Para mim, todos os momentos carregam um pouco da verdade. Há momentos mágicos e inalcançáveis mais de uma vez. O estúpido em nós é perceber que eram mágicos depois que passaram, depois que as palavras foram ditas e as lágrimas derramadas, depois que os sorrisos se apagaram. Por quê não apreciarmos a bela melodia e o doce sorriso? O bailar das estrelas e o balanço do véu da noite? Perceber que a noite foi mágica após o chegar da manhã é tão triste. Mas o triste também é belo. E o belo nisso é achar que há muito ainda a se viver, muitas noites e dias mágicos para se sentir. Achar não. Isso é uma certeza, é, é uma certeza. Só deixa de ser uma certeza quando as mãos da vida se cansam de tecer, ou quando alguém as coloca pra descansar bem longe dos fios, deixando-os ali, cheios de pontas inacabadas, cheios de nós para se desfazer, cheios de arranjos a se enfeitar.

E um momento pode se tornar especial. Até mesmo o simples deliciar de uma música tocando, o gosto do chiclete de menta se tornando macio e invadindo a boca de sabor, a vida é tão simples e bela. Pena que as pessoas estão ocupadas demais tentando montar uma vida bela e não param para perceber que ela já é. As coisas não acontecem por acaso, afinal, o que é o acaso? A mão tece os fios com cuidado, para que o resultado seja radiante, mesmo que no processo alguns calos sejam feitos, alguns remendos necessários.

Deitar no gramado e cheirar o ar molhado, choveu ontem a noite. Sentir o calor aquecendo a pele, o astro sol dançando lá em cima e jogando sua crista de calor pelos seus poros. Ver as crianças brincando perto do lago, seus sorrisos espertos emoldurados por suas bochechas infantis.

Há tanta dor no mundo que me pergunto por quê eu acho o mundo tão lindo. O mundo é lindo, não quer dizer que seja justo. Lindo não implica em justo, da mesma forma que não implica em bonito. Bonito é clichê e se encaixa no padrão de beleza da sociedade, irritante, enjoativo aos olhos. Lindo é mais, muito mais, é harmonia e um bocado de emoções guardadinhas, prontas para se mostrarem no palco, não importando qual palco seja.

Café quente. Mas sem a dor não veríamos a felicidade, sem saber o que é ruim como reconheceríamos o bom? Isso também não quer dizer que a dor mereça ser sentida, mas merecer não implica com dever. Às vezes você merece e não recebe, às vezes recebe e não merece. Dizemos que isso depende da sorte, também. Mas, como eu já falei, quem disse que o mundo é justo? Há harmonia em muitas coisas, mas isso não quer dizer que deva existir harmonia entre elas.

Às vezes é bom parar de pensar no mundo e só sentir o vento acariciando o rosto, carregar o mundo não é um fardo meu, é um fardo de todos. Mas por poder ver e questionar, apreciar e implicar, eu quero saber mais e, quem sabe algum dia, entender. Não que eu queira ser alguma sábia, sempre achei os sábios irritantes demais por acharem que eram os possuidores das verdades do mundo. A verdade não cabe em mente alguma, com exceção à verdade inventada, claro. Acontece que a palavra verdade guarda tantas outras e tantos outros conceitos que abrange demais para um pequenino cérebro humano, que se limita até nos ossos e no tecido frágil, que se limita nas idéias e no mundo ao redor. Meu limite é não ter limite, é questionar, porque não há limite, sempre há o que descobrir, o que anotar, o que guardar, até a forma de indagar muda a resposta.

Existe limite, então, para a verdade?

29 de janeiro de 2009. Cansada de palavras clichês e sem significado, mascando um chiclete de menta já sem gosto e escutando uma música encantadora. O mundo é lindo.

O Fim

O segredo exala tua essência quando se fecham as cortinas de veludo vermelho. Aonde o rímel das artistas em roupas luxuosas e apertadas mancha suas bochechas rosadas ao se mesclar com suas lágrimas felizes. A graça do show só surge quando ele acaba. Quando começa a pontada de saudade a cutucar o peito frio e pulsante. Fora isso, sem o fim, o show é apenas um show qualquer. Sem lágrimas a manchar o rosto de todos, sem emoção a calejar a garganta, sem sorrisos que marcam a face...

(22/01/2009)

Quinze

Vivi por 14 anos e adormeci por um. Quinze. Idade onde todas as garotas pensam em comemorar como se fosse um ano de felicidade obrigatória. Não foi um martírio, não. Foi um leve repousar do espírito, no qual me confortei em uma casca, sem me importar muito com o mundo a fora, a um passo da santa ignorância. Acordei num tapa. Um estilhaço no meu túmulo, um insulto ao descanso. Eu perdi um ano que poderia ter sido melhor aproveitado, mas, como dizem por aí, guardar o que for ruim e relembrar sempre o que foi bom, e então eu acordei pra vida. Reparei em coisas e pessoas ao meu redor, eu me importei de novo em analisar o cheiro das coisas, em realçar os movimentos naturais da vida aos meus olhos famintos. Me libertei do sono estúpido que me prendia, que me impedia de abrir os olhos e enxergar, de ver além do véu da falta de vontade. Eu estou feliz, e embora o ano passado não teve grande significado, serviu para me alertar de que eu não estava vivendo. Agora até aquela dorzinha no ombro após um sol muito quente ou os novos calos feitos pelo coturno são coisas a se olhar, e rir. A vida é tão simples e bela! Talvez eu esteja voltando a ser um pouco sonhadora, embora eles sejam ilusórios na maioria, acho que não podem me fazer mal, talvez me ajudem a acreditar nas coisas. Tenho vontade e motivação, é divertido até ver os novos professores tentando serem amigáveis ao se apresentar a turma. Hoje quando cheguei ao portão da vila tive um impulso muito forte, uma vontade imensa de escrever me dominou, vontade de contar ao mundo, de deixar minhas emoções ecoarem por aí. E a minha energia e fome de aproveitar o mundo é tanta que não tenho conseguido pregar os olhos cedo, mesmo assim levanto de manhã em um pulo. Algumas conseqüências do ano passado são inevitáveis, mas é bom ter cicatrizes para lembrar o que causou a dor.

Não acho que isso seja só comigo, esse adormecer por tanto tempo... A diferença dos contos de fadas é que não acordei com um beijo (risos), mas sim com um belo tapa, e eu ainda conto com o "felizes para sempre", por mais clichê que seja. Felicidade também vem com a dor, estou feliz por estar de volta. 2009.

(13/02/2009)

Veneno

Expus minhas curvas e minha pele macia à lua. Ela censurou-me, cobrindo minha superfície rosada com uma luz pálida e cadavérica, alegando para mim que a beleza pode ser esguia, leve, e também romântica. Banhou-me em seu véu estrelado, curvou seus horizontes em minhas depressões e plantou um broche vívido de sua figura, incrustado de pedras brilhantes e cristalinas, no meu cabelo.
Minha simples alegria transbordava no rosto, marcando meus passos com energéticas hesitações diante da porta ansiosa que me privava do mundo. Escancarei-a. A brisa cortante golpeou meu corpo, bagunçou meu cabelo e quase fez cair meu broche, que absurdo! Plantei um beicinho irritado e o encarei sem vacilar, embora meu corpo, coberto pela leve e fina ceda, arrepiava-se todo com a intensidade, diferença de temperatura e força.

Eu fluía como uma bailarina, cheia de força nas pontas dos pés, cheia de inocência no balançar do corpo. Quase bailava naqueles rodopios inconstantes, meus quadris para lá e para cá, os braços ondulando em um mar invisível. Parei. Um rapaz me fitava de longe, descascando meu momento com os olhos, quebrou minha ilusão.

E eu que tinha os olhos tão ludibriados, ao prestar atenção, apaixonei-me pela sua forma, detalhes, e expressão. Enchi-me de raiva por ver minha antiga verdade facilmente espatifada ao chão, minha ilusão de adoração ao meu mundo desfeita!, mas um amor selvagem e doce me cobriu, brotou de algum canto de minha mente e corpo, e foi se alimentando e domando cada pedaço do meu ser.

Tentei acorrentar em meu peito a onda que ia invadindo todo o meu corpo, salgando-me do seu puro veneno, o mais letal, que se infiltrava deixando sua essência, e se afastava tão instantaneamente, roubando de um salto a minha linha de razão. Quis acertar-lhe de todas as maneiras possíveis, pelo insulto de me atingir tão nua, sem minhas defesas e proteções! Mas seus olhares quentes para meu rosto amorteceram minha raiva, minha vontade de revidar.

Ele ajeitou meu cabelo com as mãos pesadas, recolocando o broche na selva sedosa e desobediente, no alto de minha orelha, expondo-a ao vento sibilante, e plantando um beijo carinhoso ali, fazendo percorrer em meu corpo a vontade de tê-lo mais junto a mim. Mas a lua negou-me a verdade, assim, tão crua e intensa. E a tristeza ameaçou meus olhos, alegando condenar-me caso eu contrariasse a minha lua. Sorri, pouco acanhada pela ameaça. Já havia conhecido o néctar, sabia da força, de sua intensidade e segurança sobre mim.

Ao descobrir a chave que rege a felicidade, por mais que fuja-lhe a razão, não há mais vontade de esquecer ou abandoná-la; ao ver a luz, os olhos não conseguem mais suportar a idéia de se esconder na sombra. E por mais que aquilo pudesse me alterar, eu não me importava, a chuva de felicidade me invadia toda e eu não me incomodaria de sentir aquilo sempre. Difícil e doloroso seria, de agora em diante, negar-me a ouvir suas palavras, a querer encarar seus olhos sérios, negar-me a me perder neles, dizer não ao conforto, carinho e amor que me envolvem quando penso nele. Qual é o seu segredo? Qual o nome do teu veneno, como definir sua essência?

(19/02/2009)

Estrelas

Apoiei-me na parede, sua textura rude arranhou meus cotovelos, não me importei. A maquilagem ainda estava intacta, os cabelos corriam rebeldes por meus ombros, peitos e costas, me cobrindo com um véu vermelho, ganhando destaque no meu vestido branco. Irônico, eu que sempre opto pelo preto nessas horas aonde temos de nos vestir como belas damas, escolhi um marfim com leves detalhes floridos no busto, eu nem ligava para flores!

Me senti nua ali diante das estrelas provocantes, afinal, pouca diferença havia entre meus ombros e meu delicado vestido! Havia gloss em meus lábios, devia estar como uma verdadeira menina, rosto de boneca, roupa de boneca, sapatos de mulher !

Soltei o fio de prata do tornozelo, deixei a sandália ali, oscilei para o vestido com as mãos calmas, mas senti olhos a vagarem por ali. Sorri, esquecendo da dança e do ritmo, do champagne e do vinho. Entrei no mar, ele me afetou com milhares de agulhas, me recusando. Mergulhei mesmo assim, o frio fazendo meus dedinhos arderem, que sensação gostosa! Me perdi ali por um tempo, quando voltei, já sem a noção dos pesos da vida, que tinham sido arrancados de meu corpo e mente pela correnteza, algo apertou no peito.

Confortei-me na areia, ainda sentindo o ardor das agulhas geladas em toda a minha pele, o vestido docilmente colado em minhas curvas, denunciando meu corpo que não fazia mais jus ao porte de daminha, pequena dama!

E eu estava completa, no sentido mais egoísta da palavra. Completa por esperar por olhos que me tornaram outra pessoa, completa por aguardar pelas mãos firmes e quentes que me protegerão. Estava completa por não sentir a falta de mais ninguém, e a felicidade inundava meus olhos sonhadores, salgando a boca marcada em um sorriso, refrescando o peito que arfava.

Felicidade me inundava em ondas, prontas para me afogar ali, para me envolver, tomar cada parte de mim. E era isso que eu queria. Não me neguei ao encanto e nem à segurança, nem ao amor e aos sonhos materializados, e como haveria de arrepender-me se isso me dá tudo que eu quero? Se esse encanto me satisfaz até de olhos fechados, se esse encanto me inspira e ao mesmo tempo consegue tirar minha capacidade de falar, como, algum dia, eu poderia arrepender-me? Como não sorrir se aquilo me levava a conhecer, a cada dia, novas sensações do mesmo céu lindo ! E o medo não me tomou, só a intensidade do momento, a lua beijando o mar, as estrelas piscando ao brilho inocente de meus olhos,e eu sabia que eu era daquele que me enfeitiçou com a própria essência, e eu queria sentir isso para sempre.

Eu estava sozinha ali, só minha respiração conversando com o ar, meu peito em um movimento constante e cheio de suspiros. Mas não estava só. Ele estava comigo. Ele sempre está. Só de saber da pura existência dele, o ar tinha outro gosto, a lua não apenas beijava, mas se fundia ao mar, o frio me aquecia, os olhos se fechavam e o sorriso escapava pelos lábios finos, cheios de leves suspiros, e as estrelas, ah! as estrelas, elas me ninavam com o sabor de uma eternidade! ;D

(13/02/2009)

Doce e Sal

As coisas boas sempre acabam, após o doce vem o amargo. Mas por quê não revezar entre doce e sal, sal e doce? não haveria fim, um estaria sempre ausente e quando o outro estivesse perdendo o efeito seria tomado de surpresa pelo seu oposto, criando um ciclo natural, se renovar, renovar. As coisas não precisam sempre ter um fim. Elas podem ser eternas se mantiverem seus ciclos, se mantiverem o respirar, o cheio e o vazio, opostos e complementares...

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Tão puro e tão simples, estava ali. E na sua sublime simplicidade, eu vi ramos de uma força pura que me chamaram a atenção. Uma vontade de respirar, sentir o cheiro, examinar a voz, gravar os gestos. E a liberdade que circulava nossas mãos unidas parecia ser ilusória, de tão firme e transparente que era... E as palavras escapavam de mim, brutas, sem estarem emolduradas corretamente. Mas a resposta sempre as moldava de forma agradável, mais leve. E um sentimento nascia e pulsava no peito, teimoso, querendo me controlar. Crescia e domava cada suspiro, invadia cada pensamento e plantava dúvidas em qualquer ação imprecisa...

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E só a sua presença já mudava o significado e a importância das coisas ao redor.
As luzes da cidade gritavam, dançavam, cantavam, em um ritmo de ondas brilhantes. O café com leite esfriou. A tarde caia nas trevas, a lua enfeitando o ar. Suspirei. O mundo parecia tão sereno assim, sem as complicações, os problemas, os erros. E uma sensação de torpor invadiu meu peito, bom demais para ser aceitado pelo cérebro estúpido, delicioso o suficiente para fazer transbordar o coração, o momento era meu.

(25/01/2009)

Aberração-homem

Do que adianta minhas ações?
Os passos dados sem saber as conseqüências, as palavras ditas de forma tão dura que partiu corações de pessoas boas, e más, os olhares enigmáticos, sedutores, os gestos ensaiados para situações inesperadas...

Brincar de viver já não faz parte dos meus desejos. Atuar em muitas vezes, seja para esconder, poupar, enganar, agradar...

Queria eu ter mais tempo e mais poder em minhas mãos, queria eu poder passar séculos aprendendo com as mudanças da sociedade, com as mudanças de comportamento, com o amadurecimento lento ou agressivo de muitos.

Com as aberrações criadas pelo homem, pela aberração-homem....

(03/07/2008)

Canção

Dia pesado, céu fechado, borboletas a esconder-se, cansaço estampado nos olhares de todos, um pássaro que canta, leve e animado, uma melodia de felicidade sem se importar se o dia é de tristeza.

E essa música invade meus ouvidos e balança a minha mente, e da minha cara séria e indiferente, desabrocha um sorriso desajeitado e sem controle, meio torto, mas verdadeiro. Até a alma sorri ali, naquela simplicidade aonde um muda tudo, e o dia de tristeza também ganha beleza.

E agora eu canto aquela melodia, com meus olhos e meus lábios, para todo lugar que eu vou. Pois tristeza já não se instala em mim, ela passa e eu a acaricio, e ela vai embora e me deixa aqui, com a minha canção, ecoando pelas paredes e pelos bosques.

E até o simples respirar é mais bonito. E o cansaço é apenas um descanso que me lembra de mergulhar em sonhos, e nesses sonhos ver os meus planos concretos ali.

E o olhar da melodia, o mais oposto e o mais complementar, eu encontrei. Que em vez de se chocar com os meus, me chamou, e eu mergulhei ali, respirando amor e todos os outros sentimentos que ele exala. E a canção ali, ganhando novos ritmos a cada dia, transformando meu cansaço em disposição. Confortando minha dor entre suas asas, que eu descobri não serem de simples pássaro, mas de anjo celeste e carnal. Anjo tão humano quanto eu, e tão lindo, mas tão lindo que emprestava um pouco da sua cor para o mundo todo. E tudo era mais cor, mais melodia, mais amor.

(07/03/2009)

Pedaços

E sorriu, mas nos olhos havia dor. Dor que me alcançou e me amordaçou, silenciosa e letal. E o meu peito se afogou ali. O torpor não fazia sentido. Os olhos dele estavam calmos, frios. E eu perdi a linha da razão, nenhuma explicação era plausível, cabível. E minha dor explodiu nos olhos em lágrimas desesperadas, em soluços infantis. E eu era uma criança novamente, sendo ninada pela mão do aconchego. Eu queria gritar, me atirar no peito macio dele, agarrar seu rosto e me infiltrar nos seus segredos. Eu estava louca, eu sou louca. Mas ele não sentia a minha loucura, nem entendia. Eu era única imoral ali, a única que sempre tropeça no que diz. A única que tem tanto medo de se dar e não obter retorno, de ser vazia.

Eu cansei de estar quebrada, de tentar remediar colocando pedras no meio do fluxo de dor, as pedras apenas pesavam e faziam um estrago maior.

E mãos me cercavam, calorosas. Afagavam minhas costas e meus braços enquanto diziam palavras relaxantes. Mas nada fazia sentido. Talvez eu não estivesse prestando atenção, porque aquilo não me importava. Importava-me a pele de veludo cor de oliva dele, a voz rouca e exigente, os olhos escuros. Eu não tinha importância mais sem ele. Que graça tem as coisas sem um propósito?

Eu estava tão sozinha, sem sentido e sem gosto. Sem cor e sem desejo. E lá veio ele, uma onda de luz e cores, desejos e emoções, varrendo a minha dor e me invadindo, tomando cada centímetro de mim, cada segundo e todas as noções e os sentidos. Trazendo-me de volta. Respirar. Sentir arder a garganta, o suspiro escapando dos lábios secos. E o sorriso, tão bobo e maroto, brincando na minha face. Tudo parecia tão sereno e belo com ele. Ele não poderia ser real. Era tudo o que eu sempre quis e tudo o que eu sempre tentei evitar conhecer, tudo do que eu sempre corri. Mas era tão radiante e intenso, que cegava minha vontade de ir embora, minha vontade de correr. Ele é tão mais forte que eu que me faz sentir-me completa, sem pedaços perdidos por ai. Parece que eu nunca estive quebrada. Como é estar quebrada? Isso não faz mais sentido, também.

(16/01/2009)

Vão

Eu estava presa ali, um lugar para os condenados. Mas uma esperança de vida ainda pulsava no meu peito,um sangue vermelho quente sendo bombardeado pelas veias. Mesmo com os olhos vazios como duas janelas sem nada para mostrar, com as olheiras marcando o tempo e o cansaço e a expressão de dor,de perdição. Talvez eu não estivesse tão fundo. Quem sabe se eu procurasse algum lugar para fugir, algum lugar com ar fresco e sol para aquecer minha pele de gelo, eu me encontrasse! Mas meu corpo estava plantado de exaustão ao chão,os pontilhados do concreto marcando minha pele, mas isso não tinha importância. Eu ainda estava consciente,ouvia o canto de pássaros ecoando de algum lugar,talvez a luz não conseguisse me alcançar.. Mas o som sim,eu sabia que era manhã pois os pássaros cantavam alegres. Um peso se remexia na minha cabeça, ocupando cada vez mais espaço, era o cansaço. Então eu dormia, um arco-íris e flores,sol,luz, coração batendo forte, era tudo tão real, eu sentia o perfume floral, o cheiro da terra, do orvalho ainda molhado. Acordar,como era ruim acordar e sentir o corpo mais pesado. Minha vontade era de manter os olhos fechados, no escuro dos olhos se esconde fantasia e não o medo da realidade, se esconde a imaginação saltitante de músicas inventadas,danças e histórias. Uma ilusão tão gostosa. Mas a realidade estava ali,uma pedra pesada levando minha cabeça ao chão. Eu nem sinto meu cheiro,será que ainda estou viva? Minha respiração respondeu, pesada, se arrastando pelo chão,como eu. Talvez estar viva não seja o melhor, talvez se eu não estivesse eu visse a luz para dourar meus olhos castanhos e tivesse força para esticar o rosto em um sorriso...

(14/12/2008)

Momentos

E há um momento onde a razão e a emoção se unem em um embalo, e a música assombra as decisões mais cautelosas e se agita para as inesperadas. E há um momento onde as lágrimas se derramam sobre o riso e salgam a boca, talvez por um sentimento incrédulo, talvez por pura confusão do que pensar. E há um momento, enfim, que agimos sem pensar, que agimos por instinto,que agimos por pura vontade, e que todas as atitudes tomadas ali são cruciais. Outro onde eu me perco nos pensamentos soltos nas mãos, tão confusos e diversificados, que os engulo de uma vez e engasgo, os quebrando em pedacinhos e os reformulando depois, parcialmente mudados, mais fiéis aos meus olhos, mais corajosos e dispostos a disputar com muitos outros... E há apenas alguns poucos instantes na vida, onde pensar não se é possível direito, onde o coração pulsa pela boca, seja de emoção e de medo e que o hálito quente queima as idéias prováveis de se formarem na mente... onde os olhos... os olhos se perdem em outros olhos, talvez tão perdidos quanto os meus, ou tão seguros quanto os meus...

(27/12/2008)

Ar

Eu sou um anjo. Eu carrego meus pecados escondidos em minhas asas intocáveis. Quando eu vôo para longe, meus defeitos são expostos, feridas tão raivosas e sem motivos que me pergunto de que lugar da minha mente aquilo veio. Eu pendurei pedras nos meus pés, pedras bem pesadas. Cada uma com o meu nome escrito, e com uma cor diferente. Minhas pedras são meus medos. Seus valores variam dependendo do que me faz voar, às vezes elas pesam demais e eu caio, ralando minha pele branca e rosada nessa superfície grotesca que é o chão.

Eu sempre gostei do perigo, dessa coisa de ser puxada ao chão e voltar ao céu em um relance, como uma fênix cheia de vigor em todas as suas penas, mas minhas quedas são altas demais e sempre me deixam uma ferida que não cicatriza.

Não tenho sangue sagrado. Minhas asas eu ganhei de uma estrela, que me invadiu com sua luz e despertou em mim raízes dentro dos vasos sanguíneos. E então brotou essas asas angelicais, e eu, como passarinho sem saber voar, tropeçando em meus próprios pés. Tão pequenina e tão valente, e tão idiota.

Não tenho uma boa alma, eu sou tantas em um corpo só. Meu olhar se enche de raiva e tristeza pelo que vejo no mundo, se enche de amor e paz, coisas tão opostas! Vejo beleza até na dor, até na simplicidade, até no Tudo, até no amor que me envenenou sem pedir permissão, até no existir. Meus olhos têm mais de uma cor, eles se rebelam e encaram como querem, eles são tão travessos e tão ingênuos que brincam comigo, que me desafiam. E pedem respostas de tudo que lhes está ao alcance, o que não está, também. Eles se fecham e são ninados no berço do aconchego, ninados por uma lógica traiçoeira e vingativa, por uma lógica que me ensinou que tudo está nela e que ela está em tudo. Ela estava errada.

Desamarrou as cordas que prendiam as pedras em meus tornozelos marcados, lutou com minhas feridas, enchendo-as de beijos, e sua boca, suja de meu vermelho-batom, eu quis provar. Quis jogar-me sobre seu corpo valente e me render à tudo. Sua presença me fez perceber que a lógica não é vital, como sempre pareceu, ela mente tanto... E uma coisa humana, uma besta raivosa grunhiu em meu peito, em um ritmo cadenciado e violento, ameaçou-me rasgar pelo peito se eu não o escutasse. E ele dizia, amor, amor, amor, amor, amor. Mas eu não sei o que é isso, eu não conheço isso,conheço? E isso fica aqui, amor, amor, amor. Tão rude e tão delicado, fazendo meus olhos parecerem doces e meu sorriso o de um verdadeiro anjo. E me sufoca e me dá ar. Eu quero aquele anjo para mim. Ele me fez dele, agora eu o quero só para mim. Quero provar do seu gosto e cantar o seu nome, quero acalmar minhas asas junto às dele.

Quero ser eu como nunca fui,muito mais eu do que qualquer outra Amanda. Muito mais razão e amor, amor sem razão, razão sem amor, amor e amor.

E agora, mesmo com meu pó dourado da estrela ainda sobre minhas asas e meus cílios de boneca, eu me sinto mais eu do que só um pedaço, me sinto mais anjo do que só nada. Me sinto mais humana do que racional. Me sinto mais “amor, amor, amor, amor”, naquele ritmo violento e doce do animal do meu peito, subindo e descendo, suspirando, sentindo o amor como algo fora da lógica e que, mesmo assim, existe. Eu vejo e eu sinto. É isso aqui, domando meu peito e tudo de mim, fazendo tremer meu corpo, esquentando meus olhares. É isso aqui e ele, e só ele.

(03/03/2009)

Mente Aberta

Deixei cair o álcool,derramou no vestido todo... E agora me vem você,acendendo esse cigarro,sem nem se importar com nada, assopra as cinzas e põe fogo, só pra me tirar da roupa. Me enrolei em um pedaço de pano,um trapo,pra me abrigar do frio e dos olhos. Acho que os sapatos de salto afundaram na areia,em algum canto. O cabelo despenteou,escorrem rebeldes pelas minhas costas. O batom? Ah,um alguém tirou. Cai na farra,levada pelos braços de primos, tocava música alta e minha cabeça doía,nem sabia qual mão segurava mais. Via vultos, cores dançantes,oscilantes, cabelos livres, corpos pregados, amassos.Dancei até não me lembrar mais, olhei em tantos olhos, verdes, marrons, pretos, azuis,não sei como cheguei tão perto... Talvez eu tenha apenas cumprimentado as pessoas pelo olhar.

Voltei ao segundo parágrafo,acho que caí no sono,nem me lembro o que tinha lido,nem se sonhei.Fome. Vou pegar uma maçã,uma trufa,algo doce. Me lembrei das suas conversas sobre os culpados,sobre o senso de justiça, acho que apesar de tudo o que eu disse,minha vontade, seja de sabedoria, seja de aventura, seja de adrenalina no sangue, é absurda demais pra uma vida de pouco tempo, em todos os sentidos possíveis. E que se há algo que me enlouquece é sugarem um pouquinho que seja da minha liberdade e ignorar o senso de justiça. Me corrija se estiver errada, meus livros me ensinaram isso, você se prende a tua religião, eu me prendo à elas, minhas páginas de sabedoria e histórias,que me ensinam coisas que sei que os limites da tua religião não me ensinariam. Me prendo também às aventuras, onde eu procuro comprovar e testar meus conhecimentos, e, logicamente, adquirir mais alguns.

Pecado, lado errado, tentação, ande em linha reta! E se eu disser que essas palavras podem ter sentido? Sim, pra mim sim, para ti eu não sei. São idéias jogadas em um teclado, em frases mal formuladas, criadas por um coração que ama ser livre, mas que se prende por um futuro melhor.

(22/07/2008)

Perfeição

Caiu um anjo no meu jardim, as asas puro sangue sagrado mancharam meu vestido branco, plic plic elas pingavam. E o rosto de mármore era um conjunto exótico de perfeição, os olhos repousavam como se estivesse adormecido e um sorriso caia nos lábios rosados como um véu sereno sobre a noiva. E meus olhos insultaram aquela pureza à minha frente, com toda sua malícia e os defeitos humanos... Mordi meu lábio, incapaz de me mover mais além de minha respiração pesada e fiquei tempo demais observando, gravando cada detalhe, a simetria reta e perfeita. Não reparei no sangue, nem no cheiro de ferro natural que sempre me dava enjôos, plic, plic, plic, aquilo estava distante demais para ser ouvido, meu momento era uma cápsula e tudo de ruim estava fora dela, ergui minha mão para o rosto dele, acariciei, sangue, mancha de sangue, pelo rosto, vestido, asas, pés, mão,chão. Eu flutuava no rio do sangue dele. Fui arrancada da minha cápsula de felicidade. Doeu. A realidade crua da situação... era tão pesada, tão inaceitável, tão criminosa. E eu era a criminosa, eu esperei cessar o gotejar do sangue dele enquanto gravava seu rosto naturalmente inacessível...

(30/12/2008)

Armand, Amadeo, O Amado de Deus

"E lá estava ela, sentada a algumas mesas de mim.O formato exótico do rosto combinava perfeitamente com os olhos afiados, duas bolinhas escuras passeando naquela esfera branca dos olhos, onde me lembrei vagarosamente dos olhos orientais, mas este, não, não era tão comum como eles. Olhinhos ágeis a contornar minha boca, neste momento. Ah, ela é um encanto! Sua boca pequena e bem recheada brilhava em um tom coral, exatamente como naquelas pinturas que meu Mestre fazia sob a luz dos candelabros!

Ela sorriu para mim, sabe que estou a observá-la e se diverte com isso,que ousada. Olhe, os dentinhos caninos dela me lembram presas mal-criadas, será que ela conseguiria furar um pescocinho com isso?

O cabelo dela está a cair por um rabo-de-cavalo bem preso, ruivos e lisos, sedosos, uma moldura tão leve para um par tão esperto de olhos. Ela se levantou, seu busto bem coberto por uma blusa estampada que delineava perfeitamente sua cinturinha, acompanhada de uma comum saia branca rodada que nem chegava aos joelhos. Encaminhou-se à porta do bar, cheirando à flores tropicais e sem dar nem uma última olhada, saiu. Vou atrás dela. Quero ela só para mim, quero que me ame. Quero que diga ' Sou sua. Somente sua, Armand'. Sua diabinha em corpo de moça! "

" Estou dias a persegui-la, na sombra. Decidi que não quero cravar minhas presas perversas no pescocinho fino e delicado dela. Gosto de ficar aqui, a observá-la enquanto pinta, não em quadros como meu Mestre, mas em finas folhas de papel. Gosto de vê-la banhar-se envolta na névoa fumegante que sai de seu chuveiro. Vou alimentar-me sempre depois que ela adormece, procuro sempre pessoas más, com malícia o suficiente para me fazer gozar o momento em que sugo sua vida acalmando o bravo coraçãozinho delas.
Não gosto do que vi esta noite. Ela levou um rapaz, divertiu-se com ele. Odiei não estar com ela, odiei não tê-la só para mim. Mas o que ela pensaria se me visse perto demais? Um espectro sombrio, um monstro coberto por uma pele extremamente branca e aveludada, de cabelos verdadeiramente ruivos, diferentes do dela.Ela teria medo de mim, como todos têm ou seria corajosa o suficiente para me tocar, amaciar minha pele com seus dedos longos e deixar-me levá-la ao êxtase enquanto bebo delicadamente um golinho de seu sangue vermelho que pulsa em suas veias invisíveis debaixo de sua pele macia? Ah, como um imortal como eu pode ter um desejo tão comum sem a intenção de matar?"

(de 2007~2008)

Manhã de Sábado

Não está quente aqui, está abafado. Os únicos sons que ecoam aqui dentro além de minha respiração é o tic tac do relógio e o bater de patas leves e peludas ao chão, Lunar acordou, e eu também.

Há muita vida lá fora, as gotas de chuva são sinos doces socando o chão e melodias de cores refletidas respingam por todos os lados, o verde, o azul e os variados tons vibram com tamanha intensidade que atiçam meus olhos, que me provocam.

O cheiro de terra e flores se multiplica pela umidade e escapa por frestinhas da janela, invadindo minhas narinas, convidando, acendendo, me lembrando que o que há lá fora é exatamente o que preenche os bloquinhos vazios no meu peito. Quero sair, desmanchar meu cabelo arrumado e meus bons modos...

(nunca terminei esse)