terça-feira, 16 de novembro de 2010

Neste exato momento

Muitas situações mal resolvidas me perseguem. Nos sonhos me puxam o pé, me arrancam os cabelos... Eu tenho que ser uma leoa, uma fortaleza corajosa e... estou longe disso.

Eu faço o que posso, podem me cobrar rios e mundos, mas eu sei que faço o que posso. E às vezes deixo de dormir pensando que poderia ter feito mais, talvez ali naquele instante eu poderia, mas antes não. Eu oscilo mais do que qualquer navio entre tempestades e calmarias. Meu estado varia também, a minha força. Agora estou sensível. Estou sensível há meses. E sinceramente eu queria poder cortar isso um pouco, aparar alguns galhos que fogem de mim. Mas o mundo não está em minhas mãos, e o que eu sinto também não, nem como sinto, eu sei disso...

Ontem sonhei com muito sangue em um quarto conhecido, transfusão de sangue para uma pessoa que foi muito importante para mim, injustiça, maldade, e a lembrança que a situação continua mal resolvida. Acordei assustada, e com medo, muito medo. Esse foi bem o último sentimento mais forte que senti por essa pessoa, quanto horror....

A vida é bela, mesmo sendo um show de horrores. Eu sei, eu sei. É uma pena eu saber, é uma pena eu ter tantos olhos em um só? Nesse exato momento, eu acho que é, mas cá entre nós, daqui a uma hora posso já não achar mais. Eu sou uma montanha russa.

Tenho interpretado tudo com emoções, estou um poço delas, transbordando. Ora sim, ora não. "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante". Amanhã posso ser a Amanda que quer aproveitar a vida, ou a que quer esquecer do mundo, ou a que quer aprender um pouco de tudo... Eu sou tantas, mas eu sou uma só.

Fantasmas, peço um momento de paz. Depois podem voltar com toda força, que eu prometo lutar com todos os meus artifícios.

Espero pelo amanhã e faço o possível para tornar o hoje melhor do que poderia ser. Eu faço o que posso, eu faço o que posso, eu já te disse isso tantas vezes, vê se me entende uma vez na sua vida.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Putz, perdi a hora!

Cheiro de biscoitos ao forno. Leite em um frasco transparente, na mesa. Tudo tão natural. Gramado verde à minha direita, algumas àrvores longe. Olha, tem uma flor laranja sendo alisada pelo vento, ela sorri para mim. É a felicidade aqui, e ali.

Vida fora do campo, barulhos e carros, poeira, poluição em massa, lugares fechados, céu raramente notado. Pessoas xingando nos ônibus, violência até nos gestos mais simples, desorientação! E no entanto, cá estou eu, felicidade absoluta! , pregando sorrisos na minha cara preocupada, tirando o peso de meu corpo, o cansaço é mero detalhe sem importância alguma.

Encosto o rosto na janela do ônibus, o balançar é grotesco mas não importa. As pessoas lá fora estão tão apressadas, umas estressadas dentro de seus carros, outras praguejando a vida alheia. Ninguém para para notar no olhar sonhador da criança segurando a boneca no peito, nem nas nuvens que brincam de transfiguração. Olha a determinação nos olhos do rapaz, saindo de seu trabalho. O tempo voa, ele é apressado, e as pessoas querem correr contra ele. Um ser humano não vai alcançar mais que um século, minha gente, vamos aproveitar com gosto cada segundo desse tempo que temos.

Do que vai adiantar, no final das contas, você ter o seu monte de dinheiro guardado em alguma conta bancária e morrer sem poder aproveitar? Nunca se sabe quando a vida vai acabar, mas, quando acabar, acabou. Não tem choro nem reza, acabou. Não se compra mais um tempo de vida, nem com todo aquele dinheiro que você juntou. E quem vai herdar a compensação de todo o seu suor? Família? Mas que família, se você não tinha tempo para o amor? Você não teve filhos, perdeu a oportunidade de deixar uma grande parcela sua aqui na Terra, é uma fênix que morre por estar ocupada demais para reagrupar suas cinzas.

Agora olha para a vida, você está aí correndo atrás de metas por dinheiro, todo o resto você deixou para depois. E se você tiver um infarto amanhã? E se uma bala atravessar o seu cérebro? Me conta o que vai ser dos seus planos e o que você vai ter como realização. Você vai morrer e não vai ter nenhuma luz e nem grande salvação para te dar uma segunda chance, simplesmente morreu, é pedaço de carne encerrado de lembranças. Mas que lembranças? Você teve tempo de criar alguma além dos seus ganhos na bolsa de valores?

Deixa a carne cair em qualquer canto, então, homem. Que o seu suor foi pisado. O seu dinheiro abusado. E o amor? E aquele amigo que você perdeu o contato pois era da empresa rival?

E, quando levantei os olhos do mundo lá fora, parou do meu lado uma menina de cabelos louros, bem douradinhos, presos em um rabo de cavalo. Ela se atrapalhava com a própria mochila pesada. Olhou rapidamente para o relógio, e suspirou. E então eu decidi, ou a gente controla o tempo, ou ele nos controla.

E então eu decidi não me importar com o tempo, e se ele me ameaçar, desperto para ele o sorriso mais puro de felicidade espontânea! E amar cada segundo como se o adormecer fosse ser mais doce, depois. O que é o peso do dia perto da felicidade?

Olha a vida, minha gente! A morte é só o ponto final, viva a vida, minha gente. Deixa o amor invadir os seus poros, abraça a felicidade!

Viva, que o ser humano tem a mania de contar e medir tudo, contar o tempo não vai mudar em nada, ele não vai responder mesmo se você gritar com ele. Respire e inspire, e sinta cada segundo como um grande êxtase, deixe a alegria guiar você. !

E então, sorria. (:

(Retirado do flog, é bem velho, mas bah)

Algodão-doce!

Sonho de criança

Criança de sonho, não sei se era feita de papel áspero, ou de algodão-doce, ou de vapor! Dançava entre fitilhos e fitas de cetim, com as cores do arco-íris bem vívidas. Ora era carnaval, vestida de pétalas de rosas e mascarada como uma donzela em miniatura, ora era melancolia em encenação pura, os olhos suplicando de lágrimas, o corpinho pálido curvado, vestida em tons opacos!

E quando sonhava, ria alto, soltava gargalhadas gostosas, feitas de sonho. Sonho sonhava, feito criança.

Quando queria mais era, era tudo o que uma mulher adulta poderia sonhar em ser, feito sonho, era criança! E ria, ria alto! E quando no sonho se perdia, mulher respondia, mente madura, acomodada de visões sobre o mundo, corpo cheio de volumes, quadril para lá e para cá, sensualidade no olhar, de sonho!, e desejo ardente em todo o ser. E ao criança de sonho se fazer, caía para trás, e ria! Ria porque a felicidade era plena e incondicional, tanto para a mulher, tanto para a criança, e era mais feita dela, do que só de sonho. Mas sonho a balançava, fazia ela rodar no ar. E ela voava, águia serelepe ganhando altitude! Tão bruta, tão suave, e tão de sonho!

Ao abrir os olhos, a criança, de sonho!, suspirava. O coração cantava, denunciando o sonho camuflando o amor. Haja sonho para tanto amor! E mulher ela se levantava, pele cheirando a poesia e sonhos cantados, mechas de cabelo enroladas em poeira de inocência. E os lábios, rosados, amor, chamavam. Os olhos ao se fecharem, amor encontravam, ardendo na alma, mais leve que a carne, mais superior. E os dentes, em um sorriso amarelado, felicidade estampavam. E no misto disso tudo, ela, a criança, e a mulher, a menina !, sonho contava. E amor, respirava, e amor, vivia.

E de seda ela se cobria, de um luxo de simples alegria, ela se enfeitava. E que ninguém duvide, a criança, é assim pois é completa. E é assim porque encontrou no homem o menino, e no sonho a realidade, e vice-e-versa. Se encontrou no menino, e encontrou o menino, nela. Era concha e ostra, céu e mar. E os dois se uniram, em um só. É sonho e realidade, amizade e amor, é ela e é ele. E os dois corpos, são uma só alma. E o sonho, é realidade. E ela, nada é, sem ele.

Pois sem ele, nem menina, nem sonho, nem nada, ela conseguia ser. E o vazio era tão inquieto que sussurrava tristeza nos seus olhinhos sonhadores, e o mundo, nem graça tinha. Nem felicidade, nem amor, e nem carnaval, era só silêncio, e mais nada.

Mas, com ele, lá ia ela, dançar no próprio riso, coração contando pro corpo o amor, junto com o da alma, que iam em um embalo só, enchendo de ternura e de beleza, todo esse mundo de dor.

E então, ela ria!

(Retirado do Flog - Ahhh, adoro *-*)

Idade

" Eu estava no ponto de ônibus e pousei os olhos um instante na janela do ônibus que tinha acabado de parar. Havila ali, na segunda janela, uma criaturinha que mal se sustentava no corpo trépido, os braços frágeis e enrugados rodeavam um menino, certamente o neto.
Nos olhos caídos dela, de tanto cansaço via-se olheiras fundas, rugas e rugas, e então, duas bolitas de um castanho que mentira sobre a sua idade, mergulhadas em um céu de leite.
E então, no momento que pareceu se prolongar por minutos, ela me olhou, e sorriu um sorriso cansado, mas simpático. Não sei exatamente se sorriu por reparar em mim a moça curiosa, adorável e excepcionalmente ingênua e questionadora que ela já fora um dia, ou se apenas sentiu afeição pelo meu tamanho e olhos sonhadores.

Me pergunto se sou ignorante. Será que a gentileza e a bondade nas mulheres se desenvolvem com a idade? Espero que sim, eu não me sinto gentil."

Ontem parei para pensar, e admito, não resisto a prestar atenção em detalhes. Seja um detalhe de alguma pessoa, que faz parte dela, seja algo quase imperceptível em um momento mas que é a chave para a sensação que se cria ali. Ou muitos outros detalhes, como um par de amigos trocando olhares significativos, ou o tom subjetivo em uma pergunta qualquer cheia de intenções.

Detalhes em fotos, onde mãos se tocam, onde olhares se encontram sem querer no momento das fotos serem batidas. Os detalhes nos dizem tanto!

Repare no batom vermelho da mulher vestida de preto, luxuosa, sim, mas o batom chama atenção urgente para os lábios, pode ser um pedido de amor, de carinho, ou pode ser apenas um batom arrastado na boca.

Observe o olhar desconcertado da moça, e suas bochechas ardendo de timidez ao ser surpreendida pelo rapaz, com um bilhete simples feito à mão, perfumado de carinho.

Detalhes, detalhes... nos dizem tanto.

(Retirado do Flog, de 12/05/2009)

Maçãs

09/10/09

Seus laços se desfaziam depois de algum nó mal feito, e prendiam dois tufos de cabelo encaracolado de um cobre acetinado. Nariz arrebitado de menina, o empinava para falar, toda cheia de pose, e logo pisava em falso no salto, e cambaleava. Ria de si mesma, então, ruborizada de graça. Era toda leve, e toda desastrada.

Mas ao escurecer ela caminhava sob a luz da lua, e seu olhar era pensativo. Sonhava além do horizonte, porque em cabeça de menina os limites vistos com os olhos são facilmente derrubados. Se deliciava com planos sem pé nem cabeça, com um futuro não planejado e bem sucedido, com um acontecer ao acaso, e com um bom final, se é que pensava em final...

E antes de dormir, se debruçava na cama, e iluminada pela lâmpada do quarto, corava as maçãs do rosto e os lábios. E ria baixinho, para não acordar ninguém da casa. Ria porque adorava cores, tudo colorido era uma paisagem e tanto para ela, e também porque se achava linda assim, com o rosto ressaltado pelas cores.

Ria porque assim ela se lembrava de uma maçã. Sim, maçã.

E este era seu passatempo predileto lá no sítio em que ia todos os fins de semana, colhia maçãs fresquinhas, além de outras frutas.

O ônibus balançava demais, e eu estava exausta. Estava quase anoitecendo, o céu tingido de um laranja pálido me lembrava dos afazeres que estavam previstos para o dia seguinte... Ontem tirei umas de minhas fotos da gaveta, e guardei na bolsa, agora, estava olhando-a. Senti saudade da tranqüilidade que existia na sombra das árvores, e do meu bom companheiro cesto de frutas frescas. Mas não dos tempos, e nem da menina que eu era. Evolução nunca é para o pior....
Encostada na janela fria, avistou uma chuva fina dançando no asfalto, Fechou os olhos, esvaziou a mente e, silêncio.


Aprendia muito todos os dias, e aprendeu também, a muito tempo atrás, que nunca sabemos demais (e nem sempre o bastante). Mas também que a mente precisa de um descanso diário, nem que seja assim: encostada na janela de um ônibus, ignorando os barulhos de conversa, concentrada em soltar o peso das preocupações um pouquinho, e olhar para o nada, e se importar novamente com as pequenas coisas, com os detalhes... Certos detalhes que lhe voltam à memória são tão vívidos que lhe parecem até tocáveis.

Mas aí, volta à menina, a consciência, a situação, o aperto no peito junto ao alívio. O medo.

Talvez a saudade dela não fora das frutas frescas, nem da ingenuidade. Mas sim da ousadia, da sensação de não ter medo de onde pisar... da esperança de que crescer a tornaria uma grande mulher, da quase certeza disso.

(Retirado do Flog, bem antigo também)

Yin, Yang.

Tenho uma outra face que me pede para fazer as coisas mais loucas, que me suplica ao pé do ouvido inúmeras vontades que muitas vezes se confrontam diretamente com as minhas; que me seduz com possibilidades de desejos alcançados... Me bate uma tentação! Mas pra manter minha pose e prezar por tudo que tenho, desenvolvi correntes que agarram esse meu leão pelo pescoço. Eu o domino. Pois desde então ele só ruge e arranha o chão, as paredes, o teto, uma loucura!

E quando o solto, que ele faça a festa!