quinta-feira, 16 de julho de 2009

Bichos

Mas quando eu ouvi teu grito lá do escuro, não soube se era dor ou espanto. Me aproximei como um bicho sorrateiro, causando um farfalhar irritante nas folhas secas ao chão. E bisbilhotei.

Dois olhos calmos, e tristes. Não era outro ser que pedia socorro, era eu. Socorro no riso fingido e socorro no silêncio gritante. E na claridade que eu estava, você me viu, nua, crua, transparente, com toda mágoa guardada no corpo.

Ele não deu um passo, continuava ali, totalmente coberto, apenas o brilho dos olhos eu conseguia enxergar. E confiei naqueles olhos. E, sutilmente, pedi a mão dele. Só para segurar a minha, sentir o toque, só, só um pouquinho. Mentira. Eu queria ver mais que os olhos, e queria cheirar a alma, beijar a alma..

(Alterado e retirado do Flog)

sábado, 11 de julho de 2009

É que...

Ela é deveras teimosa. E humana. E infantil.
Mas é bom se ralar de vez em quando... Só assim aprendemos como andar, aonde não pisar... E a se levantar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Pequena Grande Sonhadora

O mundo era de uma grandiosidade tremenda, e ela, pequenina. Tinha manias e apostava com si mesma. Tímida, eloquente. Sonhava muito além dos limites de seu corpo pequenino, sua alma irradiava dela, ondas e espumas bem branquinhas beijando a praia, alma beijada por desejos, por segredos.

Facilmente se emocionava, se irritava. Ela tinha um defeito bem estranho: chorava quando sentia raiva. Ao sentir raiva causada por alguém muito próximo, seus olhinhos castanhos se enchiam de gordas lágrimas. E a voz, perdida em algum sussurro trêmulo, ganhava um tom de mágoa, não de raiva. Talvez porque a raiva, por pessoas assim, a deixava magoada, é, talvez, talvez.


Ela tinha um amor sereno, que a confortava todo, todo, tempo. Às vezes séria, boba, dramática, sensível, carente (!). Atenção para esse último aqui, que carente era todo o tempo e algumas horas até demais. Seu amor era sua felicidade, seu equilíbrio, e a sua saudade. Ai, amor, saudade! Que sentimentozinho ruim esse, viu... Ela se moía toda, virava caquinhos, entrava em um martírio desproposital - era boneca de pano caída pelo peso do próprio corpo, com seus olhinhos de botão, brilhantes, mas tão tristonhos... É que, sabe, quando se recebe muito carinho, e muito amor, e muita compreensão até em pequeninos gestos, o ser se acostuma, e ela se acostumara. E por mimada estar, acostumada a ter sempre isso tudo todo o tempo, ao ficar qualquer fração de tempo sem o dono de seus mimos, ela sentia falta. Ah, Deus, e como sente! Saudade é um sentimento sem nome. Não precisava existir. Olha, amor, podemos evitar a saudade se você colar em mim e não se afastar nem um minutinho, que tal? Um dia evitaremos, um dia evitaremos.

(Resto do texto apagado porque não valia o bastante para ser guardado.)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Diva Baby, um conto sem começo (Ou, Carne Podre ponto)

Acertou-lhe o peito, um ruído oco. Rosto corado, olhos pintados e arregalados de pavor. Seu corpo fez um arco até atingir o chão. Boneca sem freios, consumida por seu consumo. Vestido de lantejoulas, saltos-agulha, batom. Íris azul como o céu, um azul urgente e, ao mesmo tempo, vazio.

Era cheia de vida - vida movida por dinheiro e ambição, tinha planos para realizar, pessoas a conhecer, o mundo era uma mesa de sensações servidas, para ela. Sorriso encantador, de deixar homens se arrastando. Corpo modificado, mas escultural. Ela era uma deusa para si mesma, e para outros que a rodeavam.

Cheirava, bebia, injetava. Drogas, álcool, álcool, drogas, e sexo. Não vivia sem nenhum deles. Deusa cheia dos tropeços. Puta. Sem se declarar, mas era escrava de desejos imundos. Adorava a carne e todos os seus pecados.

Não conhecia o amor. Dizia que conhecia e que era isso que sentia por seus vícios.

Um disparo sem querer, e o peito da diva foi perfurado, a bala passou raspando pelo coração. Não havia tristeza, nem dor, todos olhavam encantados o seio esquerdo da diva derramando seu sangue Real, dando um tom rosado, vinho, ao seu vestido deslumbrante. (Juro que esperava o momento em que algum dos seus amantes iria se agachar ali, e limpar todo o ferimento com a língua - língua já acostumada com os orifícios dela - eca. E quem sabe até mesmo sugar, com o fim de ter o sangue da diva enchendo sua boca como uma fonte fazendo um cálice transbordar; olhos frenéticos e bico de peito moído, a morte te dá prazer também, Baby? eu perguntaria)

Fez aquele gracioso arco, e caiu, estatelando aquele corpo sem ritmo no chão. Morreu. Carne morta, só. E morreu ali, também, tudo que dela fora, tudo que dela originou-se... Pois tudo dela era baseado na carne, e só nisso, apenas nisso. Morreu, só, acabou. Sem lágrimas por você, Baby. E se tiver, acredite em mim, é saudade desse teu corpo, e do teu sexo imundo, nem lembram da tua alma. Você teve alma, Baby? É, eles não sabiam, e nem chegaram a saber, que tinha. Nem você mesmo soube... Se afoga nesse álcool, se mata nesse teu orifício que te dá prazer e que já foi sujado por inúmeros fluídos.

Carne podre, Baby, é a isso que você se resumiu.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Paixão

Eu falo de tempo, e de amor. Não que o tempo venha com o amor, nem que o amor venha com o tempo. O tempo sempre vem, nesse mesmo ritmo que conhecemos, tãooo previsível... Amor é uma variável x sem equação, que só se expande, cresce.

O que todos tanto se perguntam, eu tenho uma resposta simples: há paixão sem amor, e não há amor sem paixão. Como se a paixão fosse um início de um apego, um simples gostar mais fundo, que, com o tempo, ou com qualquer outra medida incerta de delta T, floresce, como flores em um mundo aonde não há primavera, atípicas, fora do comum...

Não sei por que o amor surge. Também não sei como...

Tempo passa, é até esquecido que está passando, ou quanto, ou como, passou. Amor não. Amor cria raízes e vai dominando toda a criatura. Amor é um perigo, e uma benção tão valiosa de se receber... Perigo porque quando se respira alguém, bem, o tempo tira as pessoas de nós. Perigo... E eu não quero estar aqui para sentir isso em mim.

Idolatro os imortais, não por nada em especial, mas por aquilo que lhes sobra pelos séculos : Vida, Imortalidade. Eu, como tão sonhadora que sou, vejo em vampiros não a carnificina ou maldade, mas um dom que eu tanto queria: poder ser imortal, poder tornar alguém imortal. E inúmeros sonhos e desejos me passam na cabeça com essa fantasia de realidade.

Eu sei que não existe, mas é bom sonhar, não é?

É sim. E mesmo sem beijo de vampiro ou imortalidade, eu queria poder conservar em meu corpo todo o meu amor, essa essência linda. Mas aí eu penso, e quem disse que o amor se marca no corpo? Sim, eu acredito em alma.

(Alterado....)