sábado, 28 de março de 2009

Xadrez

Um olhar de saudade. Carta aberta, envelope rasgado, cheiro de fumaça no papel, letras tremidas.

E ali ela se esmaga, se encolhe. Pedidos de orações, vontade de voltar para casa, tudo ali, escondido naquelas palavras de afeto e saudade.

Olha o desespero da mãe, o orgulho machucado do pai, eles temem tanto! Volta, soldado, volta que a sua mulher não vê mais sentido nas coisas sem você, ela tem força pelas suas cartas, ela está enlouquecendo. Olha ela, tão moça, queria se sujar do sangue da batalha, com você.

Se joga direito nessa lama, soldado, para não perder um braço para a granada de estilhaços. Segura esse fuzil direito, não deixe o braço fraquejar, nem de fome, nem de medo, nem de dor. Você está aí para matar, não recue, se você não matar, você morre. E como ficam as suas duas mulheres? Sua mãe, aquele poço de afeição e carinho, sua mulher, aquela que só vê graça na vida com você.

Cuida desses ferimentos, homem, que se eles te incapacitarem, você é um peso morto. Roga tuas preces nas horas em que tu descansa esse corpo, guarda a foto dela nesse peito suado. Dorme com um olho aberto, soldado, pois quem está em alerta não é acertado.

Respira e aprende a controlar o desespero, soldado, porque aqui se você gritar, vai se denunciar, é suicídio, é traição com a sua tropa, é traição com o seu amor. Volta inteiro para casa, homem, não largue sua sanidade nesses corpos mutilados e nessas caretas de dor. Aqui você tem que ser uma rocha, matar por algum patriotismo, você já está no jogo, se você não jogar direito, você é esmagado, então, jogue, homem, jogue!

Guarda a sua poesia, o seu amor, a sua criança, nesse peito forte, homem, os tranca nessa fortaleza de corpo, preserva a sua mente. Abriga alguma fé nesse olhar, sustenta a sua religião para não se perder de você.

Respira a fumaça, homem, se for para morrer que seja de peito estufado e nariz erguido, tua honra está em jogo, a vida também.

Leva água e esperança nesse cantil, desistir não está entre as opções.

Você é a sua força, soldado, mete o dedo nesse gatilho e mata antes de morrer.

Exerce a desgraça dos homens direito, o que está feito já está feito, não adianta você querer negar, nem fugir. Apenas jogue.

É um combate de interesse, são duas forças que colocam vidas e histórias para se confrontar e eliminar. O mundo não tem que ser justo, é o ciclo natural das coisas, é burrice se negar a isso no campo de batalha. Se você é uma peça, tem que se mover, se é o jogador, tem que jogar.

Então jogue direito, soldado, e volta para casa, volta para o seu amor, volta para sua família. Volta, recebe as honras de abraços firmes de seu pai, os beijos estalados de sua mãe, e de sua esposa, o amor enlouquecido pela sua falta, soldado.

(Retirado do Flog)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Voa, Colibri!

Luz dos olhos meus, deixa eu me encaixar nos segredos teus! Vem contar pra mim o que te magoa tanto, que eu tenho dois bracinhos mornos e duas mãos de moça, para afagar-lhe e aconchegar-lhe. Deita aqui, no meu colo, vou te fazer dormir.

Que um dia eu possa, acordar do sonho e sentir braços pesando sobre minha cintura, corpo colado ao meu, e ao olhar, sonho sonhando!, dormindo como uma valente criança, as pálpebras debruçadas no rosto, relaxadas. E se o meu coração não te acordar, Lhe planto um beijo de bom dia nessa boca entreaberta. Acorda, Amor, acorda! E respirar você, sentir o gosto seu, escorrer seu suor, no meu corpo. Vem cá, Amor. Me afundar no teu peito, e suspirar...

Vem! Molhar os pés na espuma da praia, e os joelhos, na onda quebrada. Venha ver o meu cabelo empregado de maresia, rir comigo dele. E deslizar para a areia, e te cobrir comigo. Ah, deixa eu te olhar mais um pouquinho, o tempo não faz parte de mim- quando estou com você - , por isso não o vejo passar.

Desce um pouco dos céus, doce criatura! Deus te deu as asas, mas eu lhe ofereço amor, não vá embora. Penas e plumas leves, eu as assopro e elas riem, deliciadas. Querubim, Serafim, meu Yang e meu Yin, Meu Tudo. Deixa, amor, as lágrimas peroladas dos anjos que tanto amor tiveram e têm por nós rolarem pelo nosso peito, lavar a alma, acariciar o corpo.

É só seu olhar se perder no meu, que estou feita. Deixe que as estrelas esfarelem anos e anos sobre nossas cabeças. Por mais zonza que eu possa ficar, você, e só você, me guia, e então a paz me invade, densa e sublime, vai do peito sendo bombeada para todo o corpo, derretendo o medo. E então o amor me encara, incondicional, inquestionável, íntegro. Olhe, os céus pesando a eternidade em nossas costas, do serafim que derramou sagradas lágrimas em meu corpo adormecido, asas eu ganhei. Vem, Amor, vem voar comigo.

Vem calar a boca da chuva. Me beija, meu colibri! Que o meu corpo molhado, colado ao teu, jamais irá tremer, de frio. Oh, volúpia! Orvalho beliscando nossas bochechas com o vento. Aperta meu cabelo, sacode meu corpo, grita para eu ouvir, que o barulho da chuva está alto demais! Me morde, me beija, me agita, me nina. Escuta, encosta aqui no meu peito e escuta, mesmo com essa chuva grosseira sobre nós, e todo o meu suor e corpo molhado, meu coração canta. Naquele ritmo desesperado, "amor, amor, amor, amor, amor", ele te chama, meu bem. Escuta.

Balança comigo na rede, se a gente cair, a gente caí junto, e até no chão, eu me enrosco em você, me aninho entre seus ombros, e então, puxo o ar, e suspiro. Você é muito mais do que eu mereço, os céus me deram um tesouro e eu o mesclei no meu peito, quem quiser tirar que arranque o órgão que canta aqui, que o sufoque. Mas tesouro não é tudo, e por isso minha alma se aquece, e se eleva, porque esse amor é maior que eu, ele me toma, é você aqui em mim, reescrevendo comigo as minhas frases fracassadas, me transformando.

E agora eu sou puro torpor, eu sou mar, eu sou amor, eu sou tudo, eu sou infinito, e eu sou só tua. Me guarda com você, que você já faz parte de mim.

-

Voa, colibri, abre essas asas e golpeia o ar! Lança nas minhas asas pálidas de borboleta a sua cor, o seu bronze.

Me beija, Romeu! Transforma os meus lábios miúdos de moça em um par amado, suas palavras na minha língua. Se enrola nos meus mal formados cachos, Romeu, enlaça teus dedos neles, me penteia. Beija o meu amor inocente, Romeu, que ele é puro e todo seu. !

Voa, Colibri, voa!

(Alterado e retirado do flog)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Borrão de Tinta

Borboleta dança no vento, escrevendo agilmente arcos no ar, que nascem e logo morrem, em um ciclo generoso e sem fim.

Pausa ali, um instante, pequena inquieta! , lhe gritam outros seres, e ela ri, gozando da própria leveza, pintando quadros com seus tons pastéis.

Ela flutua, e engana os rivais.

E então, passos rudes de criança voraz, palmas no ar. O mundo se fecha em um amasso de asas, pó escorrendo, estilhaço de cores.

Abre as mãos, criança. Pequena dançarina esmagada! E o menino a joga ao vento, dizendo, dance, dance, pequenina!

Já não se faz arcos, e a pintura está borrada. E ela cai, leve como uma folha, dançando agora apenas com o seu pó, no ar. E o corpo escorrega e se prega ao chão, sem vida, sem nada, é cor pisada ao chão.

E os olhos inocentes da criança rasgam a cena rude, das mãos. Um olhar marejado. Uma lágrima idiota cai, salgada e cristalina, espatifando-se na asa morta, é um pedido desculpa, da delicada alma, expressado pelo rude corpo humano.

Está tudo bem, criança, ela ainda tem cor. Só não tem vida.

(Retirado do Flog)

terça-feira, 24 de março de 2009

Cá.Chá.Há.A.mor

Pode entrar, a porta está apenas encostada. Caminhou muito até aqui? Viu o azul de preces rogadas estampadas no céu? E o meu jardim, é lindo, eu sei, só não toque nas flores vermelhas, são venenosas e fracas, morrem e murcham rapidamente, e seus espinhos curvam-se a abocanhar a suculenta carne. Calma, o veneno é apenas vicioso.

Não se demore aqui comigo, vai chover lá fora. Não, também não espere a chuva passar, eu vou te trancar aqui comigo. Te deixo ir quando eu quiser, ou se eu cair no sono... Posso escorregar em você, e te encaixar. Daí não tem volta, você fica aqui comigo. Acha mesmo que estou sorrindo demais? Ah, é que essa idéia me agrada. Ei, não ria disso. Tá, pode rir. Mas eu posso esquecê-la, se você me pedir. Não venha me dizer que ficou acanhado com os meus avisos, eu não acredito nisso. É, não acredito não. Mas se tiver ficado, também, eu não me incomodo não.

Aceita um pouco de chá? Tudo bem, eu também não gosto muito, só me deu vontade. É, eu me arrumei só para você. Sendo sincera, algo me diz que você quer me bagunçar, e que adorou a cor do meu vestido. Eu também adoro vermelho. Você não tem nada a me contar? Ah, eu também tenho, é que as tardes sem você são sem gosto, sem tom, sem cor. Toma um pouco de chá,vai. Você pode me roubar um pouco mais? Eu adoraria.

Não, eu não te chamei para confessar nada. É que... Eu só precisava respirar um pouco de você. É, você está certo, eu tenho bastante a dizer, sim, mas tenho memória falha, entende? Para lembrar de tudo eu posso precisar de uns meses, anos, umas décadas, talvez. Tá, é mentira essa parte, minha memória não é tão ruim. É, você ri né, safado. De certa forma é uma desculpinha para ter você, é só isso, tá, certo, não é só isso. Mas, eu tenho anos para dizer tudo que reage em mim, quando penso e quando "estou" com você, né?

Então, como eu ia dizendo.

Olha, Amor, tá chovendo.

(Retirado do flog...)