quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Veneno

Expus minhas curvas e minha pele macia à lua. Ela censurou-me, cobrindo minha superfície rosada com uma luz pálida e cadavérica, alegando para mim que a beleza pode ser esguia, leve, e também romântica. Banhou-me em seu véu estrelado, curvou seus horizontes em minhas depressões e plantou um broche vívido de sua figura, incrustado de pedras brilhantes e cristalinas, no meu cabelo.
Minha simples alegria transbordava no rosto, marcando meus passos com energéticas hesitações diante da porta ansiosa que me privava do mundo. Escancarei-a. A brisa cortante golpeou meu corpo, bagunçou meu cabelo e quase fez cair meu broche, que absurdo! Plantei um beicinho irritado e o encarei sem vacilar, embora meu corpo, coberto pela leve e fina ceda, arrepiava-se todo com a intensidade, diferença de temperatura e força.

Eu fluía como uma bailarina, cheia de força nas pontas dos pés, cheia de inocência no balançar do corpo. Quase bailava naqueles rodopios inconstantes, meus quadris para lá e para cá, os braços ondulando em um mar invisível. Parei. Um rapaz me fitava de longe, descascando meu momento com os olhos, quebrou minha ilusão.

E eu que tinha os olhos tão ludibriados, ao prestar atenção, apaixonei-me pela sua forma, detalhes, e expressão. Enchi-me de raiva por ver minha antiga verdade facilmente espatifada ao chão, minha ilusão de adoração ao meu mundo desfeita!, mas um amor selvagem e doce me cobriu, brotou de algum canto de minha mente e corpo, e foi se alimentando e domando cada pedaço do meu ser.

Tentei acorrentar em meu peito a onda que ia invadindo todo o meu corpo, salgando-me do seu puro veneno, o mais letal, que se infiltrava deixando sua essência, e se afastava tão instantaneamente, roubando de um salto a minha linha de razão. Quis acertar-lhe de todas as maneiras possíveis, pelo insulto de me atingir tão nua, sem minhas defesas e proteções! Mas seus olhares quentes para meu rosto amorteceram minha raiva, minha vontade de revidar.

Ele ajeitou meu cabelo com as mãos pesadas, recolocando o broche na selva sedosa e desobediente, no alto de minha orelha, expondo-a ao vento sibilante, e plantando um beijo carinhoso ali, fazendo percorrer em meu corpo a vontade de tê-lo mais junto a mim. Mas a lua negou-me a verdade, assim, tão crua e intensa. E a tristeza ameaçou meus olhos, alegando condenar-me caso eu contrariasse a minha lua. Sorri, pouco acanhada pela ameaça. Já havia conhecido o néctar, sabia da força, de sua intensidade e segurança sobre mim.

Ao descobrir a chave que rege a felicidade, por mais que fuja-lhe a razão, não há mais vontade de esquecer ou abandoná-la; ao ver a luz, os olhos não conseguem mais suportar a idéia de se esconder na sombra. E por mais que aquilo pudesse me alterar, eu não me importava, a chuva de felicidade me invadia toda e eu não me incomodaria de sentir aquilo sempre. Difícil e doloroso seria, de agora em diante, negar-me a ouvir suas palavras, a querer encarar seus olhos sérios, negar-me a me perder neles, dizer não ao conforto, carinho e amor que me envolvem quando penso nele. Qual é o seu segredo? Qual o nome do teu veneno, como definir sua essência?

(19/02/2009)

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