quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Quinze

Vivi por 14 anos e adormeci por um. Quinze. Idade onde todas as garotas pensam em comemorar como se fosse um ano de felicidade obrigatória. Não foi um martírio, não. Foi um leve repousar do espírito, no qual me confortei em uma casca, sem me importar muito com o mundo a fora, a um passo da santa ignorância. Acordei num tapa. Um estilhaço no meu túmulo, um insulto ao descanso. Eu perdi um ano que poderia ter sido melhor aproveitado, mas, como dizem por aí, guardar o que for ruim e relembrar sempre o que foi bom, e então eu acordei pra vida. Reparei em coisas e pessoas ao meu redor, eu me importei de novo em analisar o cheiro das coisas, em realçar os movimentos naturais da vida aos meus olhos famintos. Me libertei do sono estúpido que me prendia, que me impedia de abrir os olhos e enxergar, de ver além do véu da falta de vontade. Eu estou feliz, e embora o ano passado não teve grande significado, serviu para me alertar de que eu não estava vivendo. Agora até aquela dorzinha no ombro após um sol muito quente ou os novos calos feitos pelo coturno são coisas a se olhar, e rir. A vida é tão simples e bela! Talvez eu esteja voltando a ser um pouco sonhadora, embora eles sejam ilusórios na maioria, acho que não podem me fazer mal, talvez me ajudem a acreditar nas coisas. Tenho vontade e motivação, é divertido até ver os novos professores tentando serem amigáveis ao se apresentar a turma. Hoje quando cheguei ao portão da vila tive um impulso muito forte, uma vontade imensa de escrever me dominou, vontade de contar ao mundo, de deixar minhas emoções ecoarem por aí. E a minha energia e fome de aproveitar o mundo é tanta que não tenho conseguido pregar os olhos cedo, mesmo assim levanto de manhã em um pulo. Algumas conseqüências do ano passado são inevitáveis, mas é bom ter cicatrizes para lembrar o que causou a dor.

Não acho que isso seja só comigo, esse adormecer por tanto tempo... A diferença dos contos de fadas é que não acordei com um beijo (risos), mas sim com um belo tapa, e eu ainda conto com o "felizes para sempre", por mais clichê que seja. Felicidade também vem com a dor, estou feliz por estar de volta. 2009.

(13/02/2009)

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