quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Perfeição

Caiu um anjo no meu jardim, as asas puro sangue sagrado mancharam meu vestido branco, plic plic elas pingavam. E o rosto de mármore era um conjunto exótico de perfeição, os olhos repousavam como se estivesse adormecido e um sorriso caia nos lábios rosados como um véu sereno sobre a noiva. E meus olhos insultaram aquela pureza à minha frente, com toda sua malícia e os defeitos humanos... Mordi meu lábio, incapaz de me mover mais além de minha respiração pesada e fiquei tempo demais observando, gravando cada detalhe, a simetria reta e perfeita. Não reparei no sangue, nem no cheiro de ferro natural que sempre me dava enjôos, plic, plic, plic, aquilo estava distante demais para ser ouvido, meu momento era uma cápsula e tudo de ruim estava fora dela, ergui minha mão para o rosto dele, acariciei, sangue, mancha de sangue, pelo rosto, vestido, asas, pés, mão,chão. Eu flutuava no rio do sangue dele. Fui arrancada da minha cápsula de felicidade. Doeu. A realidade crua da situação... era tão pesada, tão inaceitável, tão criminosa. E eu era a criminosa, eu esperei cessar o gotejar do sangue dele enquanto gravava seu rosto naturalmente inacessível...

(30/12/2008)

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