E sorriu, mas nos olhos havia dor. Dor que me alcançou e me amordaçou, silenciosa e letal. E o meu peito se afogou ali. O torpor não fazia sentido. Os olhos dele estavam calmos, frios. E eu perdi a linha da razão, nenhuma explicação era plausível, cabível. E minha dor explodiu nos olhos em lágrimas desesperadas, em soluços infantis. E eu era uma criança novamente, sendo ninada pela mão do aconchego. Eu queria gritar, me atirar no peito macio dele, agarrar seu rosto e me infiltrar nos seus segredos. Eu estava louca, eu sou louca. Mas ele não sentia a minha loucura, nem entendia. Eu era única imoral ali, a única que sempre tropeça no que diz. A única que tem tanto medo de se dar e não obter retorno, de ser vazia.
Eu cansei de estar quebrada, de tentar remediar colocando pedras no meio do fluxo de dor, as pedras apenas pesavam e faziam um estrago maior.
E mãos me cercavam, calorosas. Afagavam minhas costas e meus braços enquanto diziam palavras relaxantes. Mas nada fazia sentido. Talvez eu não estivesse prestando atenção, porque aquilo não me importava. Importava-me a pele de veludo cor de oliva dele, a voz rouca e exigente, os olhos escuros. Eu não tinha importância mais sem ele. Que graça tem as coisas sem um propósito?
Eu estava tão sozinha, sem sentido e sem gosto. Sem cor e sem desejo. E lá veio ele, uma onda de luz e cores, desejos e emoções, varrendo a minha dor e me invadindo, tomando cada centímetro de mim, cada segundo e todas as noções e os sentidos. Trazendo-me de volta. Respirar. Sentir arder a garganta, o suspiro escapando dos lábios secos. E o sorriso, tão bobo e maroto, brincando na minha face. Tudo parecia tão sereno e belo com ele. Ele não poderia ser real. Era tudo o que eu sempre quis e tudo o que eu sempre tentei evitar conhecer, tudo do que eu sempre corri. Mas era tão radiante e intenso, que cegava minha vontade de ir embora, minha vontade de correr. Ele é tão mais forte que eu que me faz sentir-me completa, sem pedaços perdidos por ai. Parece que eu nunca estive quebrada. Como é estar quebrada? Isso não faz mais sentido, também.
(16/01/2009)
Nenhum comentário:
Postar um comentário