Apoiei-me na parede, sua textura rude arranhou meus cotovelos, não me importei. A maquilagem ainda estava intacta, os cabelos corriam rebeldes por meus ombros, peitos e costas, me cobrindo com um véu vermelho, ganhando destaque no meu vestido branco. Irônico, eu que sempre opto pelo preto nessas horas aonde temos de nos vestir como belas damas, escolhi um marfim com leves detalhes floridos no busto, eu nem ligava para flores!
Me senti nua ali diante das estrelas provocantes, afinal, pouca diferença havia entre meus ombros e meu delicado vestido! Havia gloss em meus lábios, devia estar como uma verdadeira menina, rosto de boneca, roupa de boneca, sapatos de mulher !
Soltei o fio de prata do tornozelo, deixei a sandália ali, oscilei para o vestido com as mãos calmas, mas senti olhos a vagarem por ali. Sorri, esquecendo da dança e do ritmo, do champagne e do vinho. Entrei no mar, ele me afetou com milhares de agulhas, me recusando. Mergulhei mesmo assim, o frio fazendo meus dedinhos arderem, que sensação gostosa! Me perdi ali por um tempo, quando voltei, já sem a noção dos pesos da vida, que tinham sido arrancados de meu corpo e mente pela correnteza, algo apertou no peito.
Confortei-me na areia, ainda sentindo o ardor das agulhas geladas em toda a minha pele, o vestido docilmente colado em minhas curvas, denunciando meu corpo que não fazia mais jus ao porte de daminha, pequena dama!
E eu estava completa, no sentido mais egoísta da palavra. Completa por esperar por olhos que me tornaram outra pessoa, completa por aguardar pelas mãos firmes e quentes que me protegerão. Estava completa por não sentir a falta de mais ninguém, e a felicidade inundava meus olhos sonhadores, salgando a boca marcada em um sorriso, refrescando o peito que arfava.
Felicidade me inundava em ondas, prontas para me afogar ali, para me envolver, tomar cada parte de mim. E era isso que eu queria. Não me neguei ao encanto e nem à segurança, nem ao amor e aos sonhos materializados, e como haveria de arrepender-me se isso me dá tudo que eu quero? Se esse encanto me satisfaz até de olhos fechados, se esse encanto me inspira e ao mesmo tempo consegue tirar minha capacidade de falar, como, algum dia, eu poderia arrepender-me? Como não sorrir se aquilo me levava a conhecer, a cada dia, novas sensações do mesmo céu lindo ! E o medo não me tomou, só a intensidade do momento, a lua beijando o mar, as estrelas piscando ao brilho inocente de meus olhos,e eu sabia que eu era daquele que me enfeitiçou com a própria essência, e eu queria sentir isso para sempre.
Eu estava sozinha ali, só minha respiração conversando com o ar, meu peito em um movimento constante e cheio de suspiros. Mas não estava só. Ele estava comigo. Ele sempre está. Só de saber da pura existência dele, o ar tinha outro gosto, a lua não apenas beijava, mas se fundia ao mar, o frio me aquecia, os olhos se fechavam e o sorriso escapava pelos lábios finos, cheios de leves suspiros, e as estrelas, ah! as estrelas, elas me ninavam com o sabor de uma eternidade! ;D
(13/02/2009)
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