Eu sou um anjo. Eu carrego meus pecados escondidos em minhas asas intocáveis. Quando eu vôo para longe, meus defeitos são expostos, feridas tão raivosas e sem motivos que me pergunto de que lugar da minha mente aquilo veio. Eu pendurei pedras nos meus pés, pedras bem pesadas. Cada uma com o meu nome escrito, e com uma cor diferente. Minhas pedras são meus medos. Seus valores variam dependendo do que me faz voar, às vezes elas pesam demais e eu caio, ralando minha pele branca e rosada nessa superfície grotesca que é o chão.
Eu sempre gostei do perigo, dessa coisa de ser puxada ao chão e voltar ao céu em um relance, como uma fênix cheia de vigor em todas as suas penas, mas minhas quedas são altas demais e sempre me deixam uma ferida que não cicatriza.
Não tenho sangue sagrado. Minhas asas eu ganhei de uma estrela, que me invadiu com sua luz e despertou em mim raízes dentro dos vasos sanguíneos. E então brotou essas asas angelicais, e eu, como passarinho sem saber voar, tropeçando em meus próprios pés. Tão pequenina e tão valente, e tão idiota.
Não tenho uma boa alma, eu sou tantas em um corpo só. Meu olhar se enche de raiva e tristeza pelo que vejo no mundo, se enche de amor e paz, coisas tão opostas! Vejo beleza até na dor, até na simplicidade, até no Tudo, até no amor que me envenenou sem pedir permissão, até no existir. Meus olhos têm mais de uma cor, eles se rebelam e encaram como querem, eles são tão travessos e tão ingênuos que brincam comigo, que me desafiam. E pedem respostas de tudo que lhes está ao alcance, o que não está, também. Eles se fecham e são ninados no berço do aconchego, ninados por uma lógica traiçoeira e vingativa, por uma lógica que me ensinou que tudo está nela e que ela está em tudo. Ela estava errada.
Desamarrou as cordas que prendiam as pedras em meus tornozelos marcados, lutou com minhas feridas, enchendo-as de beijos, e sua boca, suja de meu vermelho-batom, eu quis provar. Quis jogar-me sobre seu corpo valente e me render à tudo. Sua presença me fez perceber que a lógica não é vital, como sempre pareceu, ela mente tanto... E uma coisa humana, uma besta raivosa grunhiu em meu peito, em um ritmo cadenciado e violento, ameaçou-me rasgar pelo peito se eu não o escutasse. E ele dizia, amor, amor, amor, amor, amor. Mas eu não sei o que é isso, eu não conheço isso,conheço? E isso fica aqui, amor, amor, amor. Tão rude e tão delicado, fazendo meus olhos parecerem doces e meu sorriso o de um verdadeiro anjo. E me sufoca e me dá ar. Eu quero aquele anjo para mim. Ele me fez dele, agora eu o quero só para mim. Quero provar do seu gosto e cantar o seu nome, quero acalmar minhas asas junto às dele.
Quero ser eu como nunca fui,muito mais eu do que qualquer outra Amanda. Muito mais razão e amor, amor sem razão, razão sem amor, amor e amor.
E agora, mesmo com meu pó dourado da estrela ainda sobre minhas asas e meus cílios de boneca, eu me sinto mais eu do que só um pedaço, me sinto mais anjo do que só nada. Me sinto mais humana do que racional. Me sinto mais “amor, amor, amor, amor”, naquele ritmo violento e doce do animal do meu peito, subindo e descendo, suspirando, sentindo o amor como algo fora da lógica e que, mesmo assim, existe. Eu vejo e eu sinto. É isso aqui, domando meu peito e tudo de mim, fazendo tremer meu corpo, esquentando meus olhares. É isso aqui e ele, e só ele.
(03/03/2009)
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