quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Maçãs

09/10/09

Seus laços se desfaziam depois de algum nó mal feito, e prendiam dois tufos de cabelo encaracolado de um cobre acetinado. Nariz arrebitado de menina, o empinava para falar, toda cheia de pose, e logo pisava em falso no salto, e cambaleava. Ria de si mesma, então, ruborizada de graça. Era toda leve, e toda desastrada.

Mas ao escurecer ela caminhava sob a luz da lua, e seu olhar era pensativo. Sonhava além do horizonte, porque em cabeça de menina os limites vistos com os olhos são facilmente derrubados. Se deliciava com planos sem pé nem cabeça, com um futuro não planejado e bem sucedido, com um acontecer ao acaso, e com um bom final, se é que pensava em final...

E antes de dormir, se debruçava na cama, e iluminada pela lâmpada do quarto, corava as maçãs do rosto e os lábios. E ria baixinho, para não acordar ninguém da casa. Ria porque adorava cores, tudo colorido era uma paisagem e tanto para ela, e também porque se achava linda assim, com o rosto ressaltado pelas cores.

Ria porque assim ela se lembrava de uma maçã. Sim, maçã.

E este era seu passatempo predileto lá no sítio em que ia todos os fins de semana, colhia maçãs fresquinhas, além de outras frutas.

O ônibus balançava demais, e eu estava exausta. Estava quase anoitecendo, o céu tingido de um laranja pálido me lembrava dos afazeres que estavam previstos para o dia seguinte... Ontem tirei umas de minhas fotos da gaveta, e guardei na bolsa, agora, estava olhando-a. Senti saudade da tranqüilidade que existia na sombra das árvores, e do meu bom companheiro cesto de frutas frescas. Mas não dos tempos, e nem da menina que eu era. Evolução nunca é para o pior....
Encostada na janela fria, avistou uma chuva fina dançando no asfalto, Fechou os olhos, esvaziou a mente e, silêncio.


Aprendia muito todos os dias, e aprendeu também, a muito tempo atrás, que nunca sabemos demais (e nem sempre o bastante). Mas também que a mente precisa de um descanso diário, nem que seja assim: encostada na janela de um ônibus, ignorando os barulhos de conversa, concentrada em soltar o peso das preocupações um pouquinho, e olhar para o nada, e se importar novamente com as pequenas coisas, com os detalhes... Certos detalhes que lhe voltam à memória são tão vívidos que lhe parecem até tocáveis.

Mas aí, volta à menina, a consciência, a situação, o aperto no peito junto ao alívio. O medo.

Talvez a saudade dela não fora das frutas frescas, nem da ingenuidade. Mas sim da ousadia, da sensação de não ter medo de onde pisar... da esperança de que crescer a tornaria uma grande mulher, da quase certeza disso.

(Retirado do Flog, bem antigo também)

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