quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Idade

" Eu estava no ponto de ônibus e pousei os olhos um instante na janela do ônibus que tinha acabado de parar. Havila ali, na segunda janela, uma criaturinha que mal se sustentava no corpo trépido, os braços frágeis e enrugados rodeavam um menino, certamente o neto.
Nos olhos caídos dela, de tanto cansaço via-se olheiras fundas, rugas e rugas, e então, duas bolitas de um castanho que mentira sobre a sua idade, mergulhadas em um céu de leite.
E então, no momento que pareceu se prolongar por minutos, ela me olhou, e sorriu um sorriso cansado, mas simpático. Não sei exatamente se sorriu por reparar em mim a moça curiosa, adorável e excepcionalmente ingênua e questionadora que ela já fora um dia, ou se apenas sentiu afeição pelo meu tamanho e olhos sonhadores.

Me pergunto se sou ignorante. Será que a gentileza e a bondade nas mulheres se desenvolvem com a idade? Espero que sim, eu não me sinto gentil."

Ontem parei para pensar, e admito, não resisto a prestar atenção em detalhes. Seja um detalhe de alguma pessoa, que faz parte dela, seja algo quase imperceptível em um momento mas que é a chave para a sensação que se cria ali. Ou muitos outros detalhes, como um par de amigos trocando olhares significativos, ou o tom subjetivo em uma pergunta qualquer cheia de intenções.

Detalhes em fotos, onde mãos se tocam, onde olhares se encontram sem querer no momento das fotos serem batidas. Os detalhes nos dizem tanto!

Repare no batom vermelho da mulher vestida de preto, luxuosa, sim, mas o batom chama atenção urgente para os lábios, pode ser um pedido de amor, de carinho, ou pode ser apenas um batom arrastado na boca.

Observe o olhar desconcertado da moça, e suas bochechas ardendo de timidez ao ser surpreendida pelo rapaz, com um bilhete simples feito à mão, perfumado de carinho.

Detalhes, detalhes... nos dizem tanto.

(Retirado do Flog, de 12/05/2009)

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