quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nublado

Ela tropeçava em soluços desregulados já sem nem saber por que. Uma sensação de vazio - nem tristeza havia ali. Como quem pisa no próprio pé e não tem a quem culpar, se não ela mesma. Não se lembra como pensar e morde a própria língua ao tentar explicar. Há uma lágrima que em vez de saltar dos olhos e se espatifar no chão, pesa mais a cada minuto, dando aos olhos já sonhadores uma aparência triste.

Ela não sente dor. Creio eu que se prendeu em um torpor para não pensar naquilo.

Nem mesmo dormir aliviou o peso em seus braços magrelos, deitou e ficou horas sem pensar em nada - após pensar inúmeras bobeiras, só esperando o sono vir. E quando o bendito sono veio, diferente do remédio que passa a dor, não trouxe alívio algum. Dormiu as poucas horas necessárias para manter-se alerta durante as aulas. Acordou roboticamente. Por que o fazes? E ela respondia, sonsa, "porque sim", e mais nada tinha a dizer.

Não haveria como não reparar, seu rosto sempre risonho que agora se limitava a zero. Não era tristeza porque ela sabia, lá no fundo, que não ia desistir, que não acabou, que era apenas medo e não certeza.

Mas a chateação não foi embora, ficou ali, sugando o espaço da familiar felicidade plena. Diferente de todas as outras vezes as palavras a assustaram, a feriram. A fizeram temer e sentir, nada mais nada menos que na pele, como ela era vazia sem... E aonde estava ela e toda a sua felicidade que mal cabia no corpo? Em que canto do corpo magro e pequeno, ela se escondera? Juro que tive medo de fazer 'toc toc' e ouvir um som oco e grotesco como resposta.

E talvez ela apenas se perdera na sua existência sem sal, escorregou por um instante do seu porto seguro e caiu na água escura e vazia, vazia como ela. Tendo que se encarar e racionalmente admitir que, só, em si, é só um vazio que respira sem importância.

E por quê teria de ter importância? É animal que respira, e vive, e pensa, e sente. Animal grotesco que em uma manhã de quinta feira véspera do dia de sua nobre arma, se recusa a pensar. Pediu a si para guardar o que sente um pouquinho, para não sentir o medo da perda. Parou de pensar porque assim é menos dramático. Não é ninguém triste pelos cantos, é um vazio. E ninguém reconhece o vazio porque não há nada lá, talvez até estranhem a ausência de algo, mas é só isso.

Só é complicado sorrir ao estar assim, porque convenhamos, triste sorrimos para não notarem nossa tristeza, feliz sorrimos sem saber que sorrimos, mas sorrir para o vazio? Ninguém vai o notar mesmo. É um vazio, gente, só.


Ela sou eu, e eu sou ela. Falo de mim como se outra fosse porque se começasse a desabafar teria que pensar demais, e focar o que sinto, para isso. E não quero nenhum dos dois. Como diz meu capitão, quando a mente não aguenta, a carcaça sustenta ( e quando a carcaça não aguentar, que a moral nos sustente), e que assim seja.

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